29 de maio de 2012

Você

Ausente toda a força acumulada
Assumo a minha fragilidade
E as olheiras de guerreiro derrotado.
Mais uma dose de whisky e a desordem será completa
Mais uma gota de lágrima
E a alma escorrerá por estes olhos
Exaustos de procurar qualquer brilho de esperança
Que se escape por entre as frestas dos seus olhos
Para mim fechados.

Anderson Lopes


Pretérito Imperfeito



Gostávamos de doce
E caminhávamos com os pés descalços no chão
Tomávamos toda a água da chuva
Para regar o sol no verão

Contávamos estrelas
E queimávamos os nossos dedos nelas
Matávamos vaga-lumes
E a eles acendíamos velas

Líamos nossos horóscopos nas nuvens
Víamos nossa sorte nas bolhas de Sabão
Entregávamos nossos destinos aos pássaros
Que migravam na troca de estação

Subíamos nas árvores
Alcançávamos o topo do mundo
Não tínhamos medo de cair
Do céu ao chão bastava um pulo

Éramos todos quem podíamos ser
Além de todos que imaginávamos ser um dia
Só não contávamos com a impiedade do tempo
Que um dia nos afastou com a sua mão fria...

Anderson Lopes


21 de maio de 2012

Amor Vazio




Tão atentos
Tão seguros um do outro
Tão alma e tão corpo
Era assim o amor sem tormento

Tão direito
Tão correto os seus gestos
Tão cal e tão concreto
Era assim o amor sem defeitos

Tão sem Não
Tão sem são chão
Um amor só de Sim
Nuvem
Vão...

Tão sem crises
Tão sem crimes
Um amor sem segredos
Nu
Vão...

*"...Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."*

Poema: Anderson Lopes
Com trecho do texto "Por Não Estarem Distraídos", de Clarice Lispector

15 de maio de 2012

Eis a Questão

Quanto de mim ainda tenho?
O que de mim ainda sei?
Sou de verdade ou o que invento?
Sou o que me fiz
Ou o que o tempo fez??

Só sei que nada sei
Sobre o que sei de mim...

Anderson Lopes

13 de maio de 2012

Oh, Mother, Se Eu Pudesse...

Oh, mother
Se eu pudesse eu devolveria
O frescor dos teus dias de glória
Como um Deus justo e piedoso

Oh, mother
Se eu pudesse eu te conceberia
Em meio a orgasmos múltiplos
Uma nova vida
Como uma mãe fértil e libidinosa

Mas eu não posso
Oh, mother
Eu não posso
Eu sou apenas um filho
Atado a minha condição
Infértil
Impiedoso
Como uma mãe estéril
Como um Deus que se prega nas religiões.

Anderson Lopes



9 de maio de 2012

Um Parêntese: (The Smiths - I Know It's Over )


Do excelente album The Queen is Dead a melancólica I Know it's Over, onde Morrissey canta para sua mãe as mazelas de um cara divertido, porém sozinho e sem amor:


I Know It's Over

Oh Mother, I can feel
The soil falling over my head
And as I climb into an empty bed
Oh well... Enough said
I know it's over - still I cling
I don't know where else I can go
Oh...
[...]



7 de maio de 2012

Exausto

Minha poesia anda cansada
De seduzir palavras
De jogar com as rimas
De procurar por quem por ela se encante

A minha poesia anda cansada
E eu estou calado
Sem conversa
Sem versos...
Os meus pensamentos mal formam uma frase.

Anderson Lopes

2 de maio de 2012

Jantar Indigesto [Cospe ou Engole?]



Veja ali na mesa
O casal
Jantando
Reparem nos olhos dela
Olhos inquisidores
Ameaçadores
De águia prestes a atacar a presa
Reparem nos olhos dele
Olhos caídos
Indiferentes
De presa inconsciente da ameaça

O silêncio seria total
Não fosse o barulho do mastigar das bocas
E como ela mastiga
Não a comida
A palavra
Ela não engole
Rumina
A palavra já fria
Sem sabor
Esperando o momento exato de cuspi-la
E enquanto mastiga
Ela não tira os olhos de cima dos olhos caídos dele

Na parede o relógio registra
A eternidade dos segundos...

[...]

De repente
Ele levanta os olhos
Encara-a
Ela se assusta
Torna-se a presa
Tão indefesa quanto a águia fora de seu habitat
Ele quebra o silêncio das vozes:
- O que foi? Parece assustada. Quer me dizer algo?
Ela não responde
Engoliu, sem querer
A palavra
Então, derruba os olhos em direção ao seu prato
E mastiga
Não a palavra
A comida
Já fria
Sem sabor...

Sim, a vingança é um prato que se come frio.

Anderson Lopes